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Após tombo nos preços, ureia entra em fase de recuperação

Redução dos riscos no Oriente Médio pode contribuir para a retomada dos fluxos


Foto: Canva

StoneX vê redução das tensões no mercado internacional, mas alerta que estoques abaixo da média, gargalos logísticos e juros elevados ainda desafiam produtores e compradores**

O mercado de **fertilizantes** deve ganhar maior previsibilidade no terceiro trimestre de 2026, diante do avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã e da possível normalização da navegação pelo Estreito de Ormuz. A avaliação consta na 36ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX. No Brasil, porém, o cenário exige atenção imediata, porque as compras de ureia e MAP permanecem abaixo da média histórica e o abastecimento da próxima safra de verão entra em uma fase decisiva.

A redução dos riscos no Oriente Médio pode contribuir para a retomada dos fluxos comerciais e aliviar parte das restrições que afetaram a oferta mundial nos últimos meses. Outro elemento favorável é a expectativa de retorno gradual das exportações chinesas de ureia. Mesmo assim, a StoneX ressalta que a melhora do ambiente internacional não terá o mesmo efeito sobre todos os fertilizantes, já que nitrogenados, fosfatados e potássicos apresentam fundamentos distintos.

Para Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, o avanço das negociações diplomáticas amplia a visibilidade dos participantes do setor, embora não afaste completamente a possibilidade de novos episódios de instabilidade. “A evolução das tratativas diplomáticas representa um fator importante para a redução dos riscos no mercado global de fertilizantes. Embora não elimine a possibilidade de novos episódios de instabilidade, esse cenário contribui para melhorar a visibilidade dos agentes do setor e reforça as expectativas de normalização dos fluxos comerciais ao longo do segundo semestre”, afirma.

A principal preocupação para o mercado doméstico está na necessidade de recompor estoques para os próximos ciclos agrícolas. Segundo a StoneX, os volumes adquiridos de ureia e MAP ainda estão abaixo do padrão histórico, situação que pode provocar uma aceleração das importações nas próximas semanas. A movimentação ocorre em meio a janelas logísticas limitadas, possíveis mudanças na demanda internacional e incertezas relacionadas ao comportamento das monções na Índia.

Nesse contexto, a queda das cotações não deve ser o único fator considerado pelos compradores. Produtores, cooperativas, distribuidores e empresas precisam avaliar também o tempo necessário para importação, desembarque, transporte e entrega dos insumos nas regiões agrícolas. Uma eventual concentração de pedidos pode elevar a pressão sobre a estrutura logística justamente quando o país se aproxima do período de maior necessidade de abastecimento.

“Os preços se tornaram mais atrativos, mas a atenção dos compradores deve se voltar cada vez mais para a execução logística e para o abastecimento físico. As decisões tomadas nas próximas semanas serão determinantes para garantir a disponibilidade de fertilizantes durante a próxima temporada agrícola”, observa Pernías.

A avaliação indica que adiar as aquisições na expectativa de novas quedas pode aumentar a exposição a riscos de disponibilidade e prazo. Isso não significa, segundo o material, que todos os preços subirão, mas que a decisão comercial precisa considerar o mercado físico e a capacidade de entrega. Para o setor produtivo, o planejamento passa a ter importância semelhante à negociação do valor do insumo.

Entre os nitrogenados, a ureia apresentou uma das correções mais intensas após o período de maior tensão no Oriente Médio. No mercado brasileiro, os preços CFR chegaram perto de US$ 800 por tonelada em abril e recuaram aproximadamente 50% em apenas nove semanas, conforme os dados divulgados pela StoneX. O movimento melhorou parte das relações de troca para os produtores, mas também reduziu a margem para novas quedas relevantes no curto prazo.

Com os preços em níveis mais baixos, o mercado volta a direcionar a atenção para a demanda. Entre os fatores monitorados estão uma possível retomada das compras da Índia e a necessidade de reposição dos estoques destinados à safrinha de milho no Brasil. Na análise da StoneX, parte expressiva dos elementos que pressionavam as cotações para baixo já foi incorporada pelo mercado.

“Os preços já absorveram uma parcela importante dos fatores baixistas que pressionavam o mercado. Com valores mais baixos, o foco dos participantes volta a se concentrar nos fundamentos de demanda, especialmente diante da possível retomada das compras pela Índia e da necessidade de recomposição de estoques para a safrinha de milho no Brasil”, explica Pernías.

A consequência é uma mudança no equilíbrio de riscos dos nitrogenados. Depois da forte desvalorização, cresce a possibilidade de recuperação das cotações nos próximos meses. A intensidade desse movimento dependerá do ritmo das compras internacionais, da reposição dos estoques brasileiros e da evolução dos fluxos globais de oferta.

O cenário é diferente no mercado de fosfatados. A normalização logística no Oriente Médio pode favorecer alguma redução das cotações, mas a StoneX considera que esse ajuste tende a ser mais lento. A oferta limitada de enxofre, matéria-prima necessária para a produção desses fertilizantes, continua elevando os custos industriais e restringindo a atividade das fábricas em diferentes regiões.

A menor disponibilidade de enxofre reduziu as taxas de utilização das unidades produtivas e limitou a oferta global. Por isso, a melhora das rotas comerciais não seria suficiente para levar os preços rapidamente aos níveis anteriores ao conflito. O relatório aponta que as condições estruturais da produção devem continuar exercendo influência sobre o mercado.

“A melhora no fluxo logístico não significa que o mercado retornará imediatamente às condições observadas antes do conflito. A disponibilidade de enxofre continua sendo um fator determinante para a oferta global de fosfatados, o que pode tornar qualquer ajuste de preços mais gradual e cercado de incertezas”, destaca o analista.

A restrição da matéria-prima também diminui as chances de uma retomada mais consistente das exportações chinesas de MAP e DAP. Como resultado, esses produtos podem permanecer em níveis historicamente elevados por um período maior. Para o comprador brasileiro, o acompanhamento da oferta física e dos custos industriais será essencial na definição das estratégias de aquisição.

O potássio apresenta o quadro mais equilibrado entre os três principais grupos analisados. Conforme a StoneX, não existem sinais relevantes de aperto na oferta global, enquanto os compradores mantêm cautela e resistem a valores mais altos. A combinação desses fatores reduz a possibilidade de movimentos acentuados nas cotações durante o terceiro trimestre.

“Os fundamentos do mercado de potássicos permanecem relativamente equilibrados. Não há, neste momento, uma combinação de demanda forte ou restrições de oferta que justifique movimentos expressivos de alta ou de baixa dos preços”, afirma Pernías.

A projeção é de manutenção de condições de compra próximas às atuais. Essa estabilidade relativa pode proporcionar maior previsibilidade para o planejamento, mas não representa necessariamente uma queda dos valores. As decisões continuarão dependendo das necessidades de cada operação, do calendário de aplicação e das condições comerciais disponíveis.

Mesmo com a redução das incertezas geopolíticas, o ambiente financeiro permanece desfavorável para parte dos produtores. A StoneX destaca que os juros elevados no Brasil e nos Estados Unidos continuam encarecendo o financiamento e pressionando as margens do setor rural. Dessa forma, a melhora nas condições do mercado internacional não se traduz automaticamente em maior rentabilidade.

O produtor precisa analisar o custo do fertilizante em conjunto com as relações de troca, as despesas financeiras e as condições de pagamento. A disponibilidade de um insumo mais barato pode ter efeito limitado quando a aquisição depende de crédito caro. Esse cenário deve continuar sendo um dos principais desafios para o agronegócio durante o segundo semestre. “Mesmo com a redução das incertezas geopolíticas e um mercado mais equilibrado, a rentabilidade do produtor continua sendo impactada pelo elevado custo do capital. Por isso, a melhora das condições de mercado não implica uma normalização imediata do ambiente financeiro para o agronegócio”, conclui Pernías.

 

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